C   redit
Não dá pra colocar a culpa no mundo e se esquivar de enfrentar os próprios demônios. Não dá pra dizer que a vida está desgraçada, que não tem ninguém, que o trabalho não satisfaz, que não encontra mais prazer nas coisas simples. Não dá pra virar as costas para a longa, úmida, tortuosa e florida estrada que é a vida. Não dá pra ficar parado num canto escuro, de braços dados com a solidão, apoiado na tristeza e de olho na frustração. Não dá pra perder o sono, a fome, o tesão, o encantamento, o brilho no olhar. Não dá pra pensar que nada mais tem saída e que os dias não passam de buracos negros que não têm fundo. Não dá pra pensar que o labirinto não tem saída. Não dá pra perder a confiança, a fé, a esperança. Não dá. Mas como vou mudar?, você me pergunta. E eu te respondo: modificando, primeiro, a maneira de pensar. Não pensando que é um grande complô, uma presepada ou uma brincadeira de gosto duvidoso esse “excesso de coisas ruins” que têm acontecido. Mesmo porque, deixa eu te contar um segredo, quando a gente reclama demais e agradece de menos acaba ficando mais atento para cada passo em falso que a felicidade dá. Quando estamos com nossas antenas ligadas na frequência da negatividade acabamos atraindo cada vez mais coisas ruins. Como assim?, você me interroga. E prossegue: perdi meu emprego, meu pai, meu apartamento, meu namorado. E eu te respondo: não, você não perdeu absolutamente nada. Você ganhou. Ganhou a oportunidade de ter trabalho naquele lugar. Ganhou a oportunidade de ter convivido com seu pai. Ganhou a oportunidade de trocar de casa. Ganhou a oportunidade de encontrar um novo amor. Ganhou a oportunidade de aprender e tirar uma boa lição de cada coisa chata, triste ou horrível que já aconteceu na sua vida ao longo desses anos. Não sei no que você acredita, mas eu acho que Deus não olha pra uma pessoa, aponta o dedo e diz: você vai ser um desgraçado. As coisas não funcionam dessa forma, nesse tom. Muitas vezes, sem perceber, eu acabo atraindo coisas que não são boas. Pelo meu jeito de pensar, pelas escolhas que faço, pelo caminho que sigo, pelas pessoas que conheço, pelos pensamentos que tenho, pela mania torta de não aprender com o primeiro tropeço. Sou eu. E-u. É um assunto comigo, não com o mundo. Ninguém tem culpa se as coisas não estão dando certo. E não, não pense que a vida da atriz global é infinitamente melhor que a sua só porque ela aparece bem penteada, maquiada, grifada e acompanhada. A vida de ninguém é um comercial de biscoito ou margarina. Todo mundo tem que conviver e aprender com suas mazelas e insucessos. Faz parte do amadurecimento. Mas existe, sim, uma coisa que você pode fazer. Ou começar a fazer, se é que ainda não percebeu o intenso efeito que isso faz. Você pode se modificar pouco a pouco todos os dias. Se você já percebeu que reclamar ou colocar a culpa no outro não soluciona os seus problemas, que tal arregaçar as mangas e ir em busca de uma vida mais leve? Que tal se conectar mais consigo mesmo? Que tal procurar perceber o porquê de determinadas coisas? Que tal refletir profundamente sobre tudo que já viveu e sentiu? Que tal parar de se vitimizar e procurar tudo de bom que a vida te trouxe até agora? Que tal?
Clarissa Correa    (via antipoetico)